003. Imagine

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Em uma enseada esquecida, onde o mar se encontrava com a areia em um sussurro monótono, vivia um velho pescador chamado Bartolomeu. Seus olhos, antes brilhantes como o azul do oceano, agora refletiam um vazio, a mesma ausência que sentia em sua velha canoa. Ele havia perdido o filho mais novo em uma tempestade, e desde então, a vida, para ele, parecia nadar em piscina sem água. Seus dias eram uma rotina sem propósito, lançando redes que voltavam vazias, ou observando o horizonte sem ver nada.

Bartolomeu tinha abandonado a pesca de peixes. Agora, em sua mente, ele "pescava estrelas vazias" – os fragmentos dos seus sonhos que se espalhavam pelo céu noturno. A dor da perda era uma piscina de concreto rachado em sua alma, e ele não via como preenchê-la.

Um dia, uma menina curiosa, neta do faroleiro, aproximou-se de sua canoa. "O que o senhor está fazendo, vovô Bartolomeu?", perguntou ela, com a inocência que só as crianças possuem.

Bartolomeu suspirou. "Estou nadando, minha pequena. Nadando em uma piscina que não tem água."

A menina, sem entender a melancolia em suas palavras, fechou os olhos e imitou os movimentos do velho. Ela começou a mover os braços como se estivesse em uma braçada de nado crawl. "Eu também estou nadando!", exclamou ela, sorrindo. "Sinto a água fresca e as ondas que me levam!"

Bartolomeu observou-a, surpreso. Ele nunca havia considerado que a imaginação poderia ser a água que faltava. A menina não estava nadando na realidade, mas na essência da alegria, no poder de criar o que não existe.

No dia seguinte, Bartolomeu foi para a canoa novamente, mas desta vez, fechou os olhos. Não sentiu o vazio, mas o frescor que a menina descrevera. Ele "mergulhou" nas memórias boas, nas risadas do filho, nos dias de sol na praia. Deu braçadas imaginárias através do tempo, revisitando momentos que a dor havia soterrado.

Não foi de uma vez. A piscina ainda estava vazia, mas agora, ele podia "nadar" nela. Podia sentir a leveza da mente, o ritmo da respiração. Não era uma fuga da realidade, mas uma reafirmação da sua capacidade de sentir e de sonhar, mesmo diante da ausência. A canoa, antes um lembrete do que perdeu, tornou-se um refúgio onde ele podia "nadar" em um mar de lembranças e esperanças.

Bartolomeu nunca mais pescou com a mesma amargura. Ele ainda ia para a canoa vazia, mas agora, quando fechava os olhos, não via a ausência, mas a plenitude de um espírito que aprendera a nadar em piscina sem água, transformando o vazio em um espaço infinito para a imaginação e a paz.

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