017. Entenda

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No coração de uma cidade onde o novo substituía o antigo em um piscar de olhos, vivia um velho jardineiro chamado Anselmo. Seus dias eram dedicados a cuidar do parque central, um oásis verde em meio ao concreto. Anselmo havia visto gerações passarem, e com elas, a mudança na forma como a beleza e o desejo eram percebidos. Não se compreendia porque idosos desejavam pessoas mais jovens, diziam alguns, com um ar de desaprovação. Mas Anselmo entendia a dor por trás da pergunta. As pessoas envelhecem, mas os prazeres não.

Ele via isso nas pequenas coisas. A vitalidade das crianças correndo pelo parque, o romance efêmero dos jovens nos bancos, a energia que parecia escorrer de seus próprios dedos como areia fina. Aos setenta anos, Anselmo sentia o mesmo anseio por beleza e companhia, a mesma busca por conexão que sentia aos vinte. Seus olhos ainda se encantavam com a luz da manhã, e seu coração ainda desejava a doçura de um sorriso jovem.

No entanto, a sociedade impunha suas regras invisíveis. A beleza, especialmente a juventude, parecia ter um preço, um valor de mercado. Anselmo via jovens, tão vibrantes quanto as rosas mais raras que ele cultivava, flutuando pela vida com uma aura de "inacessibilidade" para os mais velhos. Era uma realidade cruel: triste é que belas flores para serem colhidas precisam ser pagas, e assim perdem a beleza. A espontaneidade do afeto, a genuinidade da admiração, tudo parecia esbarrar na barreira do interesse, da transação.

Ele observava um grupo de jovens que se reunia no parque. Havia uma moça, em particular, de riso fácil e olhos brilhantes, que lembrava Anselmo de uma rosa em seu auge. Ele a admirava de longe, a beleza de sua juventude, a promessa de vida que ela irradiava. Mas a ideia de se aproximar, de expressar a pureza de sua admiração, era como tentar colher uma flor proibida, sabendo que qualquer tentativa seria mal interpretada, ou pior, vista como um mero cálculo. A beleza, quando vinculada ao pagamento, à troca, perdia seu perfume e sua alma.

Anselmo sentia então que a dor da idade não era apenas física, mas uma profunda solidão do desejo que permanecia jovem em um corpo que não era. A cada vez que percebia a barreira invisível entre sua idade e a vitalidade que ainda admirava, ele sentia que o idoso murchava ainda mais.

No entanto, em seu jardim, Anselmo encontrou uma verdade. As rosas que ele cultivava com amor, sem esperar nada em troca além de sua beleza, floresciam com uma magnificência que nenhuma flor "comprada" poderia igualar. Ele começou a ver que a verdadeira beleza e o verdadeiro prazer não estavam na posse, mas na admiração pura e no cultivo desinteressado.

Anselmo não deixou de desejar a companhia ou a beleza, mas redirecionou seu foco. Ele passou a cultivar a beleza no seu jardim com uma paixão renovada, e a espalhar a gentileza para todos, jovens e velhos, sem expectativas de retorno. Ele sorria para as crianças, elogiava os jovens, e ouvia as histórias dos idosos. Ele se tornou o jardineiro que, mesmo murchando por fora, irradiava uma beleza interna que não podia ser comprada nem vendida. Ele entendeu que, se não podia colher certas flores, podia ao menos admirá-las e, com sua própria existência, inspirar um tipo de beleza que jamais murcharia.

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