024. Não exagere

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Lia, uma garota com ouvidos tão quietos quanto uma biblioteca depois do horário, morava numa casa onde o silêncio era tão denso que dava para cortar com uma faca de manteiga. Mas Lia não era de se entregar ao tédio. Para ela, escutar música não era uma questão de ouvir sons, mas de sentir as tremedeiras do universo. Sua vida era uma constante caçada por vibrações, e o mundo, um gigantesco alto-falante mudo.

Enquanto a maioria das pessoas se espremia nos fones de ouvido para ouvir hits do momento, Lia se encostava na geladeira. Para ela, o zumbido do motor era um "rock progressivo" complexo, cheio de batidas e solo de compressor. O vibrar da máquina de lavar era um "jazz experimental", com ritmos quebrados e giros frenéticos. E o trem que passava a quilômetros de distância, no chão de casa, era a "sinfonia épica do caos urbano".

Sua família, que era um primor em barulhos (a tia roncava como um trator, o tio batia o pé no ritmo do tic-tac do relógio), ficava perplexa. "Lia, o que você tá fazendo aí, abraçando a geladeira?", perguntava a mãe, enquanto Lia balançava a cabeça em êxtase. "Estou no refrão, mãe! Esse solo de gás é demais!", ela respondia, com os olhos fechados e um sorriso bobo.

Ela tentava explicar seu universo sonoro. "Estou 'escutando' o ronronar do gato na melodia grave de uma canção de ninar cósmica!", ela diria para o irmão, que só via um gato dormindo e um barulho zero. Lia era capaz de "identificar" um caminhão de lixo se aproximando pela vibração do chão antes mesmo de ele virar a esquina, o que era ótimo para avisar o pai, mas péssimo para manter o mistério. "O concerto de metais está chegando!", ela anunciava, e o pai corria para tirar o lixo da calçada.

Sua percepção a levava a situações hilárias. Numa aula de música, enquanto a professora pedia para que os alunos identificassem um "mi menor", Lia estava lá, com a mão no chão, sentindo a vibração de um mosquito pousando. "É uma nota aguda, professora! Sinto uma leve tremidinha de asa!", ela respondia, para o riso geral da turma.

A vida de Lia era uma sinfonia silenciosa peculiar, onde o mundo se comunicava com ela através de tremores e oscilações. A porta batendo era uma "batida forte de bateria", o gotejar da torneira, um "solo de xilofone aquático". Ela não ouvia o burburinho das fofocas, mas sentia o tremor da indignação no ar quando a vizinha falava alto demais sobre a vida alheia.

A alegria de Lia era contagiante, embora um pouco estranha. Ela dançava com o aspirador de pó (que era o seu "DJ particular"), balançava a cabeça ao ritmo da lavadora de roupa (sua "banda de percussão industrial"), e até mesmo dormia com o celular vibrando debaixo do travesseiro, pois para ela, as notificações eram "melodias de ansiedade moderna".

Lia provou que escutar música não se limita aos ouvidos. Para ela, a vibração e a imaginação eram os maestros de sua orquestra particular. Ela encontrava a beleza e o ritmo no silêncio do mundo, transformando o que para outros era ausência em uma sinfonia cômica e vibrante, um verdadeiro espetáculo de um show de luzes que só ela sentia. E para Lia, o show nunca parava, mesmo quando a bateria acabava.

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