029. Inspire-se

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Olavo era um artista tão atormentado que até seu cabelo parecia uma obra de arte abstrata (e desgrenhada). Ele vivia de arte e... de lanches rápidos, em um loft que era mais bagunçado que o ninho de um pardal em dia de vento forte. Mas o problema de Olavo não era a falta de talento, e sim a falta daquela coisinha chamada "inspiração", que parecia fugir dele como o pão de queijo da padaria no final do dia. Para ele, criar algo belo exigia musas, montanhas e, de preferência, um pote gigante de Nutella.

Num acesso de desespero (e depois de derrubar um pote de tinta no seu último quadro "quase genial"), Olavo decidiu que precisava de um "retiro espiritual". Ele pegou seu chapéu fedorento, um pincel com três pelos e rumou para o deserto, que, para ele, era o auge do "vazio profundo".

O deserto, que deveria ser estéril, provou ser o mais hilário dos cenários. Não havia musas por ali, a não ser um grilo com cara de poucos amigos e um cactus que mais parecia um ET de braços abertos. Olavo sentou-se, esperou a inspiração bater... e levou uma picada de formiga. "É um sinal!", ele gritou, desenhando a formiga em seu caderno de esboços, achando que ela era um "ser mitológico do vazio".

Olavo tentava encontrar a beleza e o potencial onde não havia nada, e o resultado era... peculiar. Uma pedra redonda virava um "ovo cósmico prestes a eclodir um universo". Um pedaço de madeira seca, um "ser ancestral que dançava no vento" (apesar de estar completamente parado). E a areia, ah, a areia! Ela era "a pele do tempo, que mudava de tom conforme a ansiedade do artista". Seus quadros começaram a ter títulos como "A Dança da Pedra Solitária" ou "O Lamento Abstrato da Formiga".

Sua rotina criativa era um espetáculo. Ele passava horas conversando com os cactos, tentando entender suas "vibrações artísticas". Uma vez, tentou pintar o pôr do sol com o próprio sangue, mas desistiu porque a cor "não combinava com o tom alaranjado do crepúsculo". Ele jurava que as nuvens conversavam com ele, e passava horas "traduzindo" suas formas para o papel, o que geralmente resultava em desenhos de carneiros ou, inexplicavelmente, de um sapato velho.

Quando Olavo voltou para a cidade, não trouxe obras-primas no sentido tradicional, mas uma pilha de esboços de cactos com caras engraçadas, paisagens de areia com títulos filosóficos duvidosos, e uma nova filosofia: a criatividade não nasce de musas ou de potes de Nutella, mas da capacidade de ver potencial artístico em qualquer coisa, por mais boba que seja.

Sua "semente da ideia" havia florescido em uma série de quadros hilários, onde a aridez do deserto era traduzida em piadas visuais. As pessoas, antes confusas com sua arte, agora riam abertamente. Olavo havia provado que a verdadeira inspiração está em encontrar a beleza e o potencial em qualquer canto, até mesmo no mais desértico e vazio, e que a melhor arte é aquela que nos faz rir, especialmente de nós mesmos. E, talvez, a próxima grande obra de arte dele seria um retrato de um grilo.

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