035. Escute

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O Maestro Valdemar era um gênio da música, mas um desastre na vida real. Seu ouvido era tão apurado que ele conseguia distinguir o tom de uma gota d'água caindo na pia a trinta metros de distância. O problema é que o mundo, para Valdemar, era uma sinfonia infernal de barulhos: buzinas desafinadas, latidos de cachorro em ritmo de samba, e o pior de tudo, o ronco do vizinho que parecia um solo de trombone com problemas respiratórios. Para Valdemar, encontrar a verdadeira harmonia era mais difícil que afinar um gato.

Cansado da "cacofonia urbana", Valdemar decidiu que precisava de um "retiro espiritual na natureza". Ele alugou uma cabana no meio da Floresta do Sussurro (que não sussurrava nada, era só um nome chique). "Aqui, finalmente, encontrarei o silêncio que minha alma tanto anseia!", ele declarou para a sua planta de estimação, que parecia indiferente.

A floresta, que deveria ser um oásis de quietude, provou ser um palco para uma orquestra de sons peculiares. Em vez de canto de pássaros harmoniosos, Valdemar ouvia: um esquilo mastigando uma noz em ritmo de heavy metal; um grilo com um cri-cri que parecia um alarme de carro; e o vento, que, em vez de sussurrar, assobiava uma melodia fora do tom.

Valdemar tentava meditar, mas era interrompido pela "melodia" de uma gota d'água caindo de uma folha no exato tom de um "dó sustenido" indesejado. Ele tentava sentir a harmonia, mas era distraído pelo "solo de percussão" de um pica-pau desengonçado que parecia estar batucando num tambor imaginário.

Sua voz interior, que deveria ser profunda e sábia, era na verdade um monólogo engraçado: "Será que esqueci de trancar a porta? Esse pica-pau está desafinado! O que eu vou almoçar?". Ele tentava se concentrar, mas o ruído de uma minhoca se arrastando no chão parecia um contrabaixo errando a nota.

Um dia, Valdemar resolveu sentar-se ao lado de uma árvore e apenas "escutar o silêncio". Ele fechou os olhos, respirou fundo e... ouviu o próprio estômago roncando em um ritmo perfeito de bossa nova. "Ah, a verdadeira harmonia estava aqui o tempo todo!", ele exclamou, percebendo que até os sons mais constrangedores podiam ter seu próprio ritmo peculiar.

Ele começou a "regravar" mentalmente todos os sons da natureza. O coaxar de um sapo virou um barítono de ópera, o farfalhar das folhas, um coro de sopros, e o zumbido de uma abelha, um vibrato impressionante. Ele percebeu que a harmonia não estava na ausência de som, mas na capacidade de encontrar a música no caos.

Valdemar voltou para a cidade não mais como um maestro neurótico, mas como um maestro que apreciava o som do silêncio, que na verdade era uma orquestra maluca da vida. Ele provou que a verdadeira harmonia está em prestar atenção aos sons mais sutis e em rir da sua própria voz interior quando ela decide cantar uma canção boba. E assim, ele passou a reger uma orquestra imaginária de roncos de vizinhos, grilos desafinados e estômagos barulhentos, encontrando a melodia perfeita no caos da existência.

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