Maestro Silencioso, vulgo Sr. Eurico, era um coreógrafo tão vanguardista que suas apresentações eram mais quietas que velório de mímico. Sua filosofia era: "O som é uma distração. A verdadeira arte está no silêncio." Ele passava horas fazendo "aquecimento silencioso" no estúdio, que consistia em ficar parado olhando para a parede. Para Eurico, a complexidade e a profundidade da comunicação não verbal só podiam ser expressas sem o barulho de uma flatulência.
Seu sonho era criar a "Coreografia do Silêncio", uma dança onde cada movimento, cada piscar de olhos, contava uma história. O problema é que seus dançarinos, acostumados com música, estavam mais perdidos que agulha em palheiro. Eurico tentava explicar: "Aqui, você vai expressar a angústia da existência através de uma contração mínima do dedinho do pé esquerdo. Mas sem fazer barulho!" Os dançarinos se esforçavam, mas o resultado era mais parecido com um ataque de câimbra.
Os ensaios eram uma comédia de erros. Eurico, que se comunicava apenas por gestos dramáticos (e às vezes um assobio que ele jurava ser silencioso), dava instruções como: "Expressem a alegria da colheita do rabanete com um salto que não faça som!". Os dançarinos, então, faziam saltos desajeitados que terminavam com "POFS!" no chão, ou um "CRACK!" no joelho.
A complexidade da dança silenciosa era tão grande que ninguém entendia nada. Quando Eurico tentou coreografar "A Briga de Casal na Feira", os movimentos dos dançarinos eram tão sutis que pareciam estar apenas testando a pressão do ar. O público, em vez de se emocionar, coçava a cabeça, tentando adivinhar se aquilo era dança ou alguém tentando desentupir um ralo.
A "profundidade" da comunicação não verbal de Eurico levava a situações hilárias. Ele esperava que um tremor de ombro significasse "Eu te amo mais que pudim de leite condensado", mas para o público, parecia apenas um tique nervoso. Uma vez, ele coreografou uma cena de "Fuga de Prisioneiros", e o público aplaudiu pensando que era uma performance sobre "Pessoas Com Dificuldade Para Achar a Saída de Emergência".
Apresentações eram um teste de paciência para a plateia. O palco era silencioso, mas a plateia não. Alguém tossia, um celular tocava (no modo silencioso, mas ainda audível para os neuróticos), e o ronco de alguém na terceira fila quebrava toda a "harmonia do vazio". Eurico, com seu olhar de águia (e seus ouvidos de morcego), apontava para a pessoa que roncava e fazia um gesto dramático de "Silêncio, seu bárbaro!", o que deixava a plateia mais intrigada do que a própria dança.
Apesar de tudo, Eurico insistia que o silêncio tinha sua própria linguagem. Ele provou que, mesmo sem uma nota musical, era possível criar uma dança que expressasse a complexidade das relações humanas, a profundidade da confusão, e a hilária inabilidade de algumas pessoas para se comunicar sem abrir a boca. E assim, o Maestro Silencioso continuou a apresentar suas obras-primas mudas, deixando o público não apenas em silêncio, mas também em um silêncio de risadas contidas.