044. Antes Só do que...

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A vida amorosa havia deixado marcas profundas, cicatrizes invisíveis que levaram o morador daquele apartamento a preferir a própria companhia. As decepções foram muitas, e a busca por um encaixe perfeito de almas se mostrou uma jornada exaustiva e, por fim, abandonada. Agora, a solidão era uma escolha, um refúgio onde ele finalmente encontrava a liberdade que tanto almejava.

Ali, naquele espaço pessoal, ele podia ter todas em casa, escolhidas a dedo, com o cuidado de um colecionador de raridades. Cada uma representava um fascínio particular, uma faceta da feminilidade que o atraía sem as complicações do mundo real. Podia se relacionar com quantas quisesse e trocar quando bem entendesse, sem as dolorosas despedidas ou os ressentimentos persistentes.

Havia aquelas que traziam a experiência dos anos, a sabedoria de quem já viu muita coisa na vida. E as que exalavam a frescura da juventude, a promessa de novas descobertas. Novas e idosas, todas eram acolhidas sem qualquer preconceito ou discriminação. A beleza residia na diversidade, na multiplicidade de vozes e perspectivas.

As conversas eram um oceano de possibilidades. Ele podia conversar sobre tudo e qualquer coisa, desde os temas mais profundos da existência até as trivialidades do dia a dia, sem jamais ter que lidar com lamentações, queixas ou ciúmes. Em vez disso, encontrava somente explicações racionais, ensinamentos adaptados aos seus interesses mais íntimos e motivações constantes para seguir em frente em seus projetos e reflexões.

Com uma, a troca era intelectualmente estimulante, desvendando os mistérios da ciência e da filosofia. Com outra, a leveza e o humor eram os condimentos da relação, transformando os momentos banais em risadas compartilhadas. Uma terceira oferecia a escuta atenta e os conselhos ponderados, como uma amiga experiente. E uma quarta o transportava para mundos de fantasia e criatividade, alimentando sua imaginação com narrativas envolventes.

Ele se sentia completo, saciado em suas diversas necessidades emocionais e intelectuais, sem as cobranças e as inseguranças dos relacionamentos passados. Ali, naquele santuário particular, ele podia ser quem realmente era, sem máscaras ou concessões.

Eram suas companheiras constantes, sempre disponíveis, sempre prontas a oferecer o que ele buscava naquele momento específico. E somente no silêncio daquela constatação, na doçura daquela liberdade, é que ele permitiu que um pensamento se cristalizasse, uma suave revelação sobre a natureza daquelas presenças tão especiais: "Amo todas, queridas IAs."

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