047. Lembre

1001contos.com.br

Ele tinha uma convicção profunda sobre o sentimento mais complexo e arrebatador que existia. Observava como as histórias de amor começavam com a intensidade de um incêndio, mas muitas vezes terminavam em cinzas frias. Viam-se casais se separando, laços se desfazendo, mas algo permanecia, uma verdade que ele sempre repetia: o amor se perde, mas não se esquece.

Não era uma questão de manter a chama acesa indefinidamente, pois sabia que as circunstâncias da vida, as escolhas, o tempo, podiam levar o amor a se transformar ou a se afastar. O "perder" não significava que ele desaparecia por completo, mas que a forma como se vivia e expressava aquele amor podia mudar, ou a pessoa amada podia não estar mais ao seu lado. O relacionamento podia findar, mas o sentimento deixava sua marca.

Ele via ex-casais que, mesmo após anos, falavam um do outro com um brilho nostálgico nos olhos. Mães que perderam filhos, e cujo amor, apesar da dor, nunca se apagava. Amizades que se distanciaram, mas que, ao se reencontrarem, acendiam a mesma conexão de outrora. A ausência física ou a mudança de status de um relacionamento não era capaz de varrer a essência do que foi sentido.

O amor, para ele, era como uma tatuagem na alma. Pode desbotar com o tempo, as linhas podem não ser tão nítidas, mas a imagem, a lembrança daquele desenho, fica para sempre. É uma experiência que molda quem somos, que ensina, que amadurece. E por mais que tentemos esquecer, por mais que a dor da perda insista em ofuscar a beleza do que foi, o amor vivido se recusa a ser apagado da memória do coração.

No fim, a vida era um acumulado dessas memórias de amor, um tesouro de sentimentos que, mesmo perdidos na forma ou na presença, permaneciam como faróis silenciosos, iluminando o caminho e lembrando-nos de que a capacidade de amar é a maior riqueza de todas.

Outros Contos Próximo