068. Não confunda

1001contos.com.br

Ele via o mundo através de lentes próprias, distorcidas por uma carência antiga, quase crônica. Cada sorriso gentil, cada palavra de cortesia, cada toque acidental de mão em uma fila — tudo era magnificado, revestido de uma intenção que não existia. Era como se seus sensores estivessem danificados, ou os parafusos de sua percepção estivessem soltos, incapazes de captar a nuance da realidade. A simpatia casual de uma colega de trabalho, a ajuda educada de uma estranha ao carregar uma sacola, a mera cordialidade de uma vizinha ao perguntar sobre seu dia: cada mulher que lhe era gentil amolecia seu coração carente, transformando o prosaico em algo carregado de um significado oculto e ardente.

Em sua mente, a gentileza era um convite, a cortesia, uma chama. Ele não via a bondade genuína, a educação simples. Via apenas o reflexo de seu próprio desejo, projetado nas interações mais banais. Automaticamente, seu corpo reagia; ele se excitava com a própria fantasia, e sua mente começava a tecer elaboradas narrativas. Imaginava que, se ele sentia aquele tremor de desejo, era porque, de alguma forma inexplicável, ela tbm (também) sentia o desejo dela.

A realidade, claro, era outra. As mulheres, em sua maioria, seguiam suas vidas, alheias às complexas construções que se formavam na mente dele. Às vezes, a persistência de sua "leitura" equivocada as afastava, gerando constrangimento ou irritação. Ele, então, se retirava para a solidão, sentindo-se incompreendido, rejeitado, sem perceber que o eco que ele ouvia não vinha do mundo exterior, mas do abismo de sua própria carência.

E assim, ele vivia em um universo paralelo, onde a empatia era sedução, o respeito, flerte, e a simples coexistência, uma dança de anseios mútuos. Sua tragédia não era a ausência de amor, mas a incapacidade de reconhecê-lo em suas formas mais puras e desinteressadas, pois estava sempre em busca de um desejo que era apenas seu próprio reflexo, distorcido e amplificado por seus sensores danificados e parafusos soltos.

Outros Contos Próximo