070. Cure-se

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Na vila das montanhas, onde as palavras eram tão preciosas quanto o silêncio, vivia um homem conhecido por sua economia verbal. Não dava discursos, não tecia longas explicações, mas sua presença era um bálsamo. Quando a aflição batia à porta de alguém, as conversas se estendiam por horas, carregadas de lamentos e teorias. Ele, no entanto, apenas se sentava, ouvia, e quando o momento pedia, inclinava a cabeça e pronunciava sua prece. Não era uma oração floreada, cheia de adjetivos e súplicas complexas. Era um sussurro, quase um comando, direto ao ponto, como o próprio homem.

Sua fé não precisava de alardes, de rituais pomposos ou de um vocabulário extenso. Ela se manifestava na certeza absoluta de que uma Força Maior não estava "lá fora", distante, mas intrinsecamente conectada a ele. Quando alguém lhe pedia ajuda para a dor, ele fechava os olhos, respirava fundo e, com a voz embargada pela convicção, apenas dizia: "Ó Deus que vive em mim, cura-me de..." E então, seguia-se o comando, quase uma ordem sussurrada, com a autoridade de quem sabia que sua palavra era apenas um eco de uma verdade maior.

Quando a velha Elara sofria com o corpo pesado e o fôlego curto, ele se aproximou, e o único som que se ouviu foi: "Ó Deus que vive em mim, cura-me da tosse insistente." E a tosse silenciou. Para o jovem que não conseguia prosperar em seu ofício, a oração foi: "Ó Deus que vive em mim, faça-me ganhar o cargo." E a notícia do emprego chegou em poucos dias. Certa vez, um homem da cidade vizinha, afligido por um mal que o impedia de urinar, procurou-o desesperado. A prece foi breve, direta e audaciosa: "Ó Deus que vive em mim, diminua a próstata." E, para a surpresa de todos, o alívio veio.

O homem de poucas palavras era o canal de uma fé que transcendia o entendimento. Não havia dúvidas em seu tom, apenas a convicção. E os que o procuravam, mesmo os que não tinham fé alguma, sentiam uma estranha e poderosa esperança brotar no peito, pois viam que, para aquele homem, a palavra era semente, e a fé, o solo fértil onde milagres simples e poderosos floresciam. Sua oração não era um pedido, mas um reconhecimento da capacidade divina que ele acreditava residir em tudo, e que se manifestava através de um homem que sabia que, às vezes, menos é mais, especialmente quando se fala com o infinito.

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