080. Tenha Bons Hábitos

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Em uma cidade esquecida pelos deuses da limpeza, as baratas dominavam. Não eram criaturas comuns — essas tinham personalidade, um senso de propósito e, acima de tudo, um talento para sobreviver.

No centro do bairro chamado "Baratópolis", vivia Zuzu, uma barata filósofa. Ela costumava se esconder atrás da geladeira da Dona Neide e refletir:

“Não é que a gente não acaba. É que eles vivem criando as condições perfeitas pra gente florescer. Se gostam do barato… então tá barato pra nós!”

A vizinhança estava dividida. Uns diziam que a infestação era culpa da bagunça, do lixo espalhado, da fritura acumulada nos azulejos. Outros, com ar de superioridade, garantiam que o problema era cultural: “O povo se apega ao barato… e o barato sempre vem com a barata.”

Mas a verdade estava nos cantos. Nas brechas dos rodapés, no fundo das gavetas de pão embolorado. Lá, as baratas viviam não por acaso, mas por convite silencioso. Era como se cada migalha esquecida fosse um convite escrito à mão: “Venha, fique, se multiplique.”

Zuzu e suas colegas sabiam que não eram queridas, mas também sabiam que eram necessárias — uma espécie de lembrete vivo. Elas eram a metáfora perfeita: quando se despreza o valor do cuidado, o “barato” sai caro.

No fim, a cidade não acabou com as baratas, porque nunca quis acabar com os hábitos que as alimentavam. E assim, entre panos de prato e embalagens mal fechadas, Zuzu prosperava, escrevendo crônicas invisíveis na sujeira dos descuidados.

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