Era uma vez um ser tão bonito que até os reflexos se sentiam privilegiados por tê-lo como modelo. Onde passava, os olhares se grudavam como chiclete em sola de sapato. Não importava se estava comprando pão ou fugindo de uma tempestade — tudo virava desfile.
Cansado de tanto aplauso silencioso, resolveu que merecia mais. Criou um perfil em uma rede social e postava selfies com legendas profundas como:
"A beleza é um dom... que eu carrego com humildade."
Recebia curtidas como quem distribui balas em festa infantil.
Mas um dia, ao caminhar por uma praça, viu um ser desajeitado tentando ajudar um gato preso numa árvore. O ser não tinha traços dignos de capa de revista, nem seguidores virtuais. Mas escalava o tronco com a elegância de um saco de batatas em queda livre.
O bonito riu. Alto. Alto o suficiente para o gato se assustar e pular direto no colo do desajeitado. A cena foi aplaudida por quem estava por perto. O bonito, confuso, postou:
"Ajudar é bonito. Mas ser bonito ajudando é melhor."
Zero curtidas. Um comentário: "Prefiro o gato."
Sentindo o ego arranhado (como o sofá da casa do gato), decidiu fazer uma boa ação. Comprou flores, entregou a um desconhecido e tirou uma foto com a legenda:
"Espalhando amor. E sim, esse é meu lado bom."
Mas a imagem viralizou por outro motivo: alguém notou que ele havia cobrado pela flor. O comentário mais curtido dizia:
"A beleza pode até agradar os olhos, mas a cobrança pela bondade é feia pra caramba."
Desde então, o bonito passou a andar com um espantalho — feio, torto, mas cheio de boas ações. E, curiosamente, era o espantalho quem recebia os abraços, os sorrisos e os convites para café.
O bonito? Bem, ele finalmente entendeu que o espelho só reflete o que está por fora. E que a alma, essa sim, precisa de boas ações para brilhar.