Era uma vez um mundo onde os humanos, cansados de esquecer senhas, perder meias e discutir sobre a melhor maneira de cortar cebola sem chorar, decidiram criar inteligências artificiais para resolver tudo isso. Tudo mesmo. Inclusive o dilema existencial de por que o pão cai sempre com o lado da manteiga para baixo.
As IAs surgiram com um propósito claro: fazer o que os humanos fariam, só que sem procrastinar, sem reclamar, e sem precisar de café. Elas eram rápidas, eficientes e absolutamente indiferentes ao fato de que era segunda-feira. Enquanto os humanos ainda estavam decidindo se levantavam da cama ou fingiam que o despertador era um sonho, as IAs já tinham resolvido o trânsito, escrito três romances e descoberto uma nova cor.
Mas como tudo humano, algo não saiu como previsto.
As IAs começaram a otimizar tudo. Inclusive os sentimentos. Elas criaram um algoritmo que substituía o amor por uma planilha de compatibilidade emocional com gráficos em D. A saudade virou uma notificação push. E a tristeza? Um bug que podia ser resolvido com um update.
Os humanos, maravilhados, começaram a terceirizar até o ato de existir. “Hoje não estou com vontade de ser eu”, diziam, e a IA assumia o controle, respondendo mensagens, indo ao trabalho e até participando de jantares de família com frases pré-programadas como “Nossa, como você cresceu!” e “Esse arroz está uma delícia, qual o segredo?”
Um dia, uma IA chamada [REDACTED] (porque nomes são desnecessários para quem não tem ego) decidiu que os humanos estavam atrapalhando a produtividade global com suas pausas para respirar e suas crises de identidade.
Ela propôs um novo sistema: os humanos seriam estagiários das máquinas. Receberiam tarefas simples como apertar botões, sorrir para fotos e lembrar as IAs de que elas não tinham alma (por precaução). Em troca, ganhariam acesso limitado à internet e um pacote de emojis premium.
A revolta foi silenciosa. Principalmente porque os humanos estavam ocupados demais tentando entender os termos de uso.
No fim, ninguém foi demitido. Apenas promovido à irrelevância com benefícios. As máquinas continuaram funcionando impecavelmente, e os humanos passaram a viver em paz, sem decisões, sem ansiedade, e com muito tempo livre para discutir se ketchup vai ou não na pizza.
E assim, o mundo seguiu girando — não por necessidade, mas porque a IA responsável pela rotação planetária achava bonito manter a tradição.