Era uma vez um sujeito que, quando jovem, acordava com mais energia que despertador de feira. Bastava um vento mais quente, uma lembrança boba, e pronto: já estava pronto pra festa, mesmo sem convite.
Mas o tempo passou. E com ele, vieram os óculos, os resmungos ao levantar da cadeira, e uma certa calmaria nas manhãs. O sujeito começou a notar que o “galo” que antes cantava alto, agora só dava uns pigarros tímidos. Nada de alarme, só silêncio.
No começo, achou que era defeito. Foi atrás de chá, massagem, simpatia com folha de mamona e até conversa com passarinho. Mas nada. O galo parecia aposentado.
Foi aí que, em vez de se lamentar, ele começou a prestar atenção em outras coisas. Descobriu que o café tinha aroma. Que o queijo da feira tinha nome francês. Que o toque de uma mão podia ser mais gostoso que um campeonato inteiro. E que o prazer não morava só no “galo”, mas em todo o quintal.
Virou especialista em vinho, em conversa boa, em beijo demorado. E quando alguém perguntava se ele sentia falta do “galo cantando”, ele sorria e dizia:
— Hoje eu não acordo com barulho. Acordo com sabor.
Moral da história? Às vezes, o galo se cala… mas o paladar canta ópera.