126. Sonhe Real

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Ele era conhecido como O Esquecido, mas não por esquecer as coisas. Pelo contrário, sua mente era um labirinto impecável de lembranças, cada uma catalogada e arquivada com perfeição. O que ele esquecia era que algumas delas jamais haviam acontecido.

Sua manhã começou com uma missão: encontrar a chave do seu carro voador, que ele tinha certeza de ter deixado no bolso da jaqueta espacial de camurça. "É um detalhe crucial!", ele murmurou para si mesmo. Passou horas procurando, revirando o armário de trajes e até mesmo o quarto de gravidade zero. O problema era que ele nunca teve um carro voador. Nem uma jaqueta espacial de camurça. Ele só tinha uma bicicleta enferrujada e um casaco velho que cheirava a naftalina.

Mais tarde, no café da esquina, ele tentou descrever para a barista a incrível peça de teatro que tinha visto na noite anterior. "O final foi arrepiante!", ele exclamou, gesticulando dramaticamente. "O protagonista descobriu que a melodia que o assombrava era na verdade a canção de ninar de sua infância. Uma revelação genial!" A barista, que o conhecia de outras fantasias, apenas sorriu e serviu seu café, sem dizer que a noite anterior tinha sido de lua cheia e todas as salas de teatro estavam fechadas para um festival de sapos coaxantes.

O ponto alto de sua tarde foi quando, sentado no parque, ele se lembrou de uma aposta épica que fizera na juventude: subir no topo da montanha mais alta, usando apenas uma escova de dentes como apoio. "Eu venci, claro!", u a um passante que estava lendo um livro. "A vista era espetacular. De lá, pude ver a curva do horizonte e as nuvens que pareciam algodão-doce." O passante, sem tirar os olhos do livro, apenas acenou com a cabeça. O Esquecido não se deu conta de que a montanha mais alta que ele conhecia era o monte de roupa suja que se acumulava em seu quarto.

Ao anoitecer, ele estava em seu sofá, com a mente fervilhando. As lembranças inexistentes se acumulavam, uma sobrepondo a outra. Ele se lembrou da corrida de unicórnios que venceu na feira, do discurso que fez para salvar a árvore mais antiga da cidade e de como ensinou um passarinho a cantar ópera.

Então, algo estranho aconteceu. A confusão em sua mente se misturou com uma faísca de clareza. Ele parou de tentar encontrar a chave do carro voador e a peça de teatro. Ele sorriu. "Ah, sim", ele disse em voz alta para o silêncio do seu apartamento. "Agora me lembrei. Nenhuma dessas coisas aconteceu."

O Esquecido se sentiu leve, como se um peso imenso tivesse sido tirado de seus ombros. As lembranças fabricadas não o assombravam mais, pois ele as aceitava pelo que eram: histórias divertidas, aventuras que ele havia imaginado. Não eram memórias, mas s.

Ele não se importava mais em lembrar o que não existiu. Em vez disso, ele começou a escrever. E, nas páginas em branco, ele finalmente encontrou seu lugar: O Mestre do Quase, o criador de lembranças que, mesmo não sendo reais, eram as mais belas de todas.

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