Uma força sobrenatural, acreditava ele, o protegia. Sua perfeição inata era a prova disso, garantindo-lhe tudo o que era necessário para uma vida próspera. Sinais o guiavam, impedindo-o de cometer qualquer erro. Mesmo assim, não acreditava em Deus, pois não conseguia dialogar com Ele.
Ele se via como uma obra-prima, um ser tão perfeitamente concebido que o próprio Criador devia ter dedicado um esforço extra em sua criação. "Nasci com tudo", gostava de afirmar, ajeitando sua vestimenta impecável, "uma inteligência que faria os gênios buscarem conselhos, uma conta bancária que faria os mais ricos sentirem inveja e uma aparência que inspiraria admiração."
Sua fé residia em sua própria divindade pessoal. Ele se considerava protegido por um escudo cósmico, forjado em sua própria perfeição. Sinais, ele dizia, o direcionavam. Se um pássaro pousasse em sua janela, era um presságio para investir em determinado setor. Se um som específico ecoasse repetidamente, era um aviso para evitar um caminho. Ele jamais errava, pois acreditava que sua orientação era precisa, vinda diretamente do universo.
O dilema, contudo, era a ausência de um canal de comunicação direto. Com sua lógica infalível e sua autoconfiança elevada, ele não conseguia compreender um Deus que não pudesse ser contatado por meios modernos. "Ora, se sou tão perfeito e o universo me envia sinais tão claros", ponderava ele, enquanto recebia um serviço impecável, "por que não posso ter uma conversa direta com o Grande Arquiteto? Desejo questionar os detalhes da minha concepção, pedir ajustes no meu destino!"
Ele tentava. Fechava os olhos com intensidade, concentrando-se com a mesma dedicação que empregava em negociações importantes, mas o resultado era sempre o mesmo. Nenhum sussurro divino, nenhuma resposta telepática. Apenas o eco de sua própria voz grandiosa. "Onde está você, ó Grande Arquiteto?", questionava ao vazio, enquanto ruídos externos, que ele considerava "óbvios demais", ecoavam.
Um dia, em um momento de lazer ao ar livre, ele observava a natureza ao seu redor, ponderando se os elementos eram sinais de um futuro empreendimento ou meros acontecimentos casuais. De repente, um objeto leve e colorido escapou das mãos de uma criança e foi levado pelo vento em direção ao céu. Ele observou a cena com um leve distanciamento. "Que falta de previsão", pensou. "Um objeto tão frágil, sem controle. Um erro básico de gerenciamento."
De repente, o objeto, levado por uma rajada de vento inesperada, colidiu com um obstáculo natural e se desintegrou, espalhando fragmentos coloridos pelo ambiente. A criança começou a chorar, e sua responsável tentava acalmá-la.
Ele, com um ar de quem acabara de decifrar um enigma cósmico, declarou com solenidade: "Viram? Um sinal inequívoco! O universo está me demonstrando que a fragilidade e a falta de controle levam à desintegração. Uma lição sobre a importância da minha própria estabilidade e perfeição!"
Nesse exato instante, um pequeno fragmento do objeto colorido, levado por uma corrente de ar sutil, pousou delicadamente sobre seu rosto. Ele sentiu um leve toque e piscou. Olhou para o fragmento em seu rosto e, pela primeira vez em muito tempo, uma dúvida, tão pequena quanto um grão de poeira, começou a minar a fortaleza de sua autoconfiança.
"Será que...", pensou ele, retirando o fragmento com cuidado quase cirúrgico, "...será que o 'diálogo' divino não se manifesta em conversas, mas sim em uma sucessão de eventos aleatórios que nós, com nossa capacidade limitada, tentamos interpretar como sinais?"
A ideia era tão incomum, tão contrária à sua própria grandiosidade, que ele quase soltou uma risada. Mas o pequeno fragmento em sua mão parecia zombar dele. Ele olhou para o céu, não mais em busca de um interlocutor, mas apenas para a imensidão azul. E, pela primeira vez, ele não se sentiu o centro do universo, mas apenas um ponto, talvez perfeitamente posicionado, talvez não, em meio a uma vastidão de fenômenos que ele, com toda a sua perfeição, ainda não conseguia explicar. E a ausência de um "diálogo" com Deus, talvez, fosse apenas a constatação de que o universo possuía suas próprias regras, muito mais imprevisíveis e menos personalizadas do que ele jamais imaginara.