Era uma vez, numa cidade onde as praças eram sempre cheias e as conversas, mais ainda, morava um senhor que tinha um dom. Ele era o mestre da opinião grátis. Não importava o assunto, ele tinha uma visão. Se alguém falasse do tempo, ele já emendava: "Vai chover, mas só na hora do almoço. E a água vai ser fria". Se a conversa era sobre a obra na rua, ele opinava: "Estão colocando o cano errado. Tinha que ser o de plástico, que dura mais. Eu vi na TV".
As pessoas, a princípio, até se divertiam. Era como ter um comentarista particular para cada evento do dia. Ele distribuía seus conselhos generosos com um sorriso no rosto, sem pedir nada em troca. Mas, com o tempo, a gratidão começou a murchar.
Um dia, um vizinho foi plantar uma roseira. O Especialista em NADA se aproximou, com a mão no queixo.
"Você tá plantando torto," ele disse, com a voz de quem sabe tudo. "Tem que ser um pouco mais para a esquerda, e a terra tem que misturar com areia. A rosa vai ficar mais vermelha."
O vizinho, que suava para fazer o buraco, parou, olhou para o Especialista e respondeu, de mau humor: "Senhor, se eu quisesse um conselho, eu procuraria. E se fosse de graça, eu ainda pagaria para não ouvir."
O Especialista ficou sem chão. Ele, que só queria ajudar, foi recebido com ingratidão.
E ele começou a pensar. "Se a minha opinião, dada de bom coração, é vista como um incômodo, imagina se eu cobrasse por ela? O que aconteceria?"
A imaginação dele viajava. Ele se via com uma placa na praça: "Consultoria de Opiniões - R$ a palavra".
Chegava um jovem, desconfiado, e perguntava: "Senhor, vale a pena pedir minha namorada em casamento?"
O Especialista, com a mão estendida, dizia: "São reais, por favor." O jovem pagava, relutante.
O Especialista colocava a mão no queixo, pensava um pouco e falava: "Sim."
O jovem olhava, indignado: "Só isso? E por que?"
O Especialista, sério, apontava para a placa. "A opinião custa , o porquê custa mais . Você quer continuar?"
A imaginação do Especialista era pura comédia. Ele pensava nas brigas que teria. "Você me cobrou reais para me dizer que eu devia comprar uma camisa azul? Eu comprei e a cor não combina com nada!"
Ele ria sozinho, percebendo o absurdo da situação. Opinião grátis é um peso. Opinião paga, então, seria uma fortuna de problemas.
No fim das contas, ele entendeu. O valor de uma opinião não está no que ela custa, mas em quem a pede. E, principalmente, em quem está disposto a ouvi-la.