023. Drible a Realidade

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No calor escaldante do verão, a piscina vazia do quintal de Gabriel era um lembrete cruel do que ele não podia ter: um banho. Rachada, suja, um mero buraco de concreto sob o sol impiedoso, ela servia agora como um lar para sapos aventureiros e um ninho para as aranhas mais ousadas. Seus vizinhos, com suas piscinas azuis que brilhavam como um outdoor de refrigerante, riam e se refrescavam, enquanto Gabriel, com apenas dez anos, só podia observar. Para ele, nadar em piscina sem água era mais do que uma metáfora; era a sua Olimpíada particular.

Mas Gabriel tinha uma mente que transbordava, mesmo quando a piscina estava mais seca que discurso de político. Ele fechava os olhos. O cheiro do cloro (que ele jurava sentir, sabe-se lá como), a sensação da água fresca em sua pele (apesar do calor de graus), o som abafado de seu próprio mergulho (que era só um "ploft" feito com a boca). Tudo isso se tornava tão vívido que ele quase podia sentir as ondas batendo em seu traseiro.

Com os olhos fechados, ele saltava do trampolim imaginário. "VAI, GABRIEL! É OURO!", ele gritava para si mesmo. O ar rasgava com seu corpo, e ele mergulhava na inexistência azul, passando por tubarões-imaginários e sereias que acenavam (e eram invisíveis). As braçadas vinham fáceis, o nado crawl perfeito, a respiração ritmada, mesmo com a língua para fora. Ele virava na borda, impulsionava-se, e cruzava o comprimento da piscina em tempo recorde, vencendo competições invisíveis com adversários feitos de pura fantasia, tipo o Michael Phelps-fantasma.

Às vezes, ele convidava seu melhor amigo, Léo, para "nadar" com ele. Léo, que não tinha a mesma imaginação fértil (ele só via o buraco sujo), ria no começo. "Como a gente vai nadar sem água, Gabi? A gente vai é suar mais!", perguntava. Mas Gabriel o convencia. "É só fechar os olhos e sentir! E ignora o cheiro de rã." E, aos poucos, Léo também começava a sentir a leveza do corpo, o frescor inexistente, o prazer do mergulho no vazio, até que um sapo real pulava no pé dele e a magia acabava.

A mãe de Gabriel, que o via de longe, às vezes se emocionava. Seus olhos fechados, os movimentos lentos e fluidos dos braços, o sorriso sereno que se formava nos lábios do filho. Ele não estava nadando na água; estava nadando na essência da pura loucura infantil, na força de ignorar a realidade e na resistência do espírito humano diante da ausência (e do lodo).

Eles sabiam que a piscina não teria água tão cedo, mas isso não importava. Gabriel não estava nadando na piscina de concreto, mas na piscina de sua própria mente, onde as possibilidades eram infinitas e a água, embora invisível, nunca secava... ou pelo menos não precisava de cloro. Nadar em piscina sem água era a prova de que, às vezes, a realidade é muito mais flexível quando se tem coragem de ser um pouco pirado.

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