038. Imagine

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Clara vivia em um lugar que ela chamava de "Selva de Pedra .". Era um emaranhado de prédios tão altos que escondiam o sol, e a vida era uma repetição infinita de "acorda, engarrafamento, trabalha, engarrafamento, dorme". A natureza para ela era uma lenda urbana, tipo unicórnios ou uma vaga de estacionamento no centro. Para Clara, encontrar a liberdade e a renovação era tão provável quanto ver uma vaca voando entre os arranha-céus.

Sua rotina era tão previsível que até o despertador bocejava. O máximo de "natureza" que ela via era a samambaia de plástico da vizinha, que parecia mais cansada que ela. Clara vivia num apartamento tão pequeno que quando ela abria a geladeira, a porta da sala batia.

Um dia, Clara teve um surto de "ecologia urbana". Ela decidiu que iria se reconectar com a natureza, nem que fosse com um graveto. Ela abriu a janela de sua minúscula varanda (que era mais um parapeito) e esperou. "Vou ouvir os sussurros da brisa!", ela anunciou para a sua plantinha de plástico.

A brisa da cidade grande não sussurrava; ela assobiava, roncava e, às vezes, parecia estar contando piadas ruins. O que Clara ouvia não era a natureza, mas os sons da cidade traduzidos pelo vento: o "sussurro" de um pneu furando, o "cochicho" de uma buzina presa, e o "murmurio" de um cachorro latindo por horas a fio.

Clara tentava se sentir livre. Ela estendia os braços na varanda, respirava fundo o ar poluído e fechava os olhos. Sentia o vento bater no rosto... e percebia que o vento estava trazendo a poeira da obra do prédio ao lado direto para dentro do seu apartamento. Sua liberdade era a de uma estátua de jardim em dia de tempestade de areia.

Ela começou a ter umas manias estranhas em busca da renovação. Tentou cultivar umas sementes de feijão num copinho de plástico, mas elas murchavam e ela passava a dar aulas de autoajuda para as sementes mortas. Colocou umas pedrinhas no chão da varanda e as chamou de "jardim zen de bolso". Tentou meditar, mas era interrompida pelo barulho do trator da rua de baixo.

O "sussurro da brisa" a levava a situações hilárias. Um dia, ela jurou ter ouvido o vento lhe contar o segredo da felicidade, mas quando tentou seguir o conselho, descobriu que o vento estava apenas levando a fofoca da vizinha sobre o sumiço do seu gato. Outra vez, o vento trouxe um chapéu que voou de outro prédio, e Clara, em vez de devolvê-lo, o chamou de "presente dos céus" e passou a usá-lo, mesmo sendo três números maior que sua cabeça.

Clara, antes uma prisioneira da rotina, tornou-se uma exploradora cômica do seu "deserto urbano". Ela provou que a liberdade e a renovação não estão em grandes paisagens, mas em rir das pequenas esquisitices do dia a dia, em se reconectar com uma natureza que nem sempre coopera, e em ouvir os sussurros da brisa, mesmo que ela esteja apenas te entregando a poeira e as fofocas alheias. E assim, ela continuou a viver, feliz em sua varanda minúscula, esperando o próximo "sussurro" bizarro do vento.

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