Ele refletia sobre a existência de uma força maior, um poder que orquestrava o universo. Para ele, era uma verdade inegável que tudo e todos somos servos de Deus ou algo superior, seja lá que nome for. A natureza, em sua complexidade e perfeição, parecia a prova viva dessa obediência a uma ordem que transcendia o humano.
No entanto, havia um anseio profundo em seu coração, uma necessidade de ir além da mera aceitação. Ele pedia uma prova. "Eu peço uma prova para ser servo com convicção", pensava. E sua condição era simples, quase boba para a grandeza do que buscava: "Basta me curar para evitar uma pequena e simples cirurgia."
A seus próprios olhos, e sabia que aos olhos de muitos, isso poderia parecer uma chantagem. Uma barganha com o divino. Mas ele estava certo de que, se Ele existisse, sabia que não era chantagem, pois conhecia a profundidade de sua alma. Ele se via como um Tomé moderno, aquele que só acreditava vendo. "Só acredito vendo!", murmurava para si mesmo. A fé cega, para ele, era um desafio que sua natureza que gosta de ver para crer ainda não conseguia aceitar por completo.
Ele reconhecia a ironia de sua posição. Sentia-se parte da criação, um servo por natureza, como a árvore que cresce ou o rio que corre. Mas essa servidão era passiva, sem a entrega total que a certeza traria. Por isso, declarava: "Enquanto não obtiver uma prova, continuarei servo, como tudo da natureza, por entender que ainda não estou preparado."
Era um dilema entre a lógica e o que está além do que se vê, a razão que exigia um sinal e a intuição que sentia a presença do inominável. Sua fé não era ausente, mas estava crescendo devagar, à espera de algo que a fizesse acelerar e se tornar forte. A cura de uma pequena cirurgia seria, para ele, o milagre pessoal que desataria os nós da dúvida e o permitiria ser um servo não por obrigação, mas por plena e inabalável certeza.