Naquele campo, a regra não estava escrita, mas todo mundo sabia: ou você entrava com calça de veludo… ou estava fora do jogo. Não era sobre talento, paixão ou espírito esportivo. Era sobre o tecido, sobre o brilho, sobre a marca que se ostentava. Era a calça de veludo ou estava fora.
O homem de alma simples, com a velha roupa puída e o sorriso aberto, chegou animado, como sempre fazia. Trazia a bola debaixo do braço e a esperança de jogar nem que fosse por dez minutos.
— Hoje vai ter espaço pra mim? — perguntou, já amarrando o tênis torto.
O pessoal, enfileirado no canto, fingiu que não ouviu. O dono da bola oficial, um tal de Marquês da Imagem, olhou de cima a baixo, estufou o peito e soltou a sentença:
— Aqui, meu amigo… ou é calça de veludo… ou tá fora.
O homem deu uma risadinha nervosa, sem entender se era piada ou humilhação. Mas logo compreendeu quando viu os outros todos, com seus shorts de marca, calçados reluzentes e meias até o joelho, como se fossem mestres de um time grande.
Tentou argumentar:
— Mas eu trago água, ajudo a catar bola, até lavei as camisas da última vez…
Nada feito.
— Não paga, não joga. E hoje tem fotógrafo. A direção vai postar no grupo exclusivo. Aparência é tudo, irmão.
O homem de alma simples foi para a calçada. Sentou no meio-fio. De lá, ficou olhando o jogo com a mesma vontade de sempre. E com a mesma roupa de sempre.
Enquanto os outros corriam, posavam e tiravam selfie, ele suspirava.
No bolso, só tinha o troco do pão. Mas na cabeça… já começava a escrever seu próprio campeonato: sem regras bestas, sem expulsão disfarçada e, principalmente…
Onde ninguém precisasse de veludo para jogar bola de verdade, para viver a vida de verdade.