105. Reaja

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Na longínqua superfície de um planeta que se acreditava plano porque “parecia mais confortável assim”, vivia uma sociedade que havia abolido os fatos por serem considerados “inconvenientes e um pouco arrogantes”.

Ali, tudo era decidido por votação emocional. Se alguém sentia que o sol estava triste, todos usavam guarda-chuvas em dias ensolarados por respeito. Se alguém achava que gravidade era uma fase, os prédios eram construídos com balões e esperança.

O sistema educacional era exemplar: os alunos aprendiam a argumentar com frases como “eu li num comentário” e “minha intuição grita isso”. Livros foram substituídos por almofadas, pois “conhecimento deve ser confortável”.

O progresso tecnológico era lento, mas cheio de entusiasmo. Inventaram o “telepensador”, um aparelho que transmitia opiniões aleatórias de pessoas que nunca estudaram o assunto. Era usado para tomar decisões médicas, jurídicas e culinárias. Um dia, alguém sugeriu que comer tijolos poderia aumentar a autoestima. A ideia viralizou. Tijolos sumiram dos mercados. A autoestima continuou baixa, mas agora com dor de estômago.

O governo era formado por indivíduos que se destacavam por falar com muita certeza sobre absolutamente nada. Um deles, famoso por afirmar que o tempo é uma ilusão inventada pelos relógios, propôs abolir os calendários. A população comemorou o Ano Novo por sete meses seguidos, até que todos esqueceram o que estavam comemorando.

As ciências foram substituídas por “ciências alternativas”, como a meteorologia intuitiva (“sinto que vai chover em mim hoje”) e a física emocional (“se eu acredito que posso voar, então posso... até o primeiro andar”).

Um dia, um ser estranho apareceu com gráficos, dados e evidências. Foi recebido com desconfiança e imediatamente acusado de “fatofobia”. Expulso por tentar provar coisas, ele deixou para trás um bilhete: “Boa sorte com a evolução. Volto em milênios.”

E assim, a República dos Sentimentos Fortes e Fontes Nenhumas continuou sua jornada lenta rumo ao futuro — tropeçando em certezas inventadas, escorregando em achismos e celebrando cada erro como uma nova verdade.

Porque ali, pensar era opcional. E duvidar, ofensivo.

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