Em um reino onde a língua era um rio de palavras agradáveis, vivia um monarca. Não um monarca de verdade, é claro. Ele se sentava no trono e vestia a coroa, mas sua verdadeira função era ser o que todos queriam que ele fosse.
Certo dia, um visitante veio da fronteira. Ele era um homem grande, com uma barba grossa, e parecia mais uma montanha em movimento do que um ser humano.
“O que você é?”, perguntou o monarca.
O visitante deu um passo à frente, com a voz grave como o barulho de pedras rolando. "Sou um homem de guerra! Meu propósito é lutar, defender o que é meu e tomar o que é dos outros!"
O monarca pensou por um momento, sorrindo. O que o povo queria ouvir de um homem de guerra? A bravura de um guerreiro.
"Então você é a Bravura. É o escudo que nos protege e a espada que nos defende. Onde quer que você vá, a vitória o segue!"
O visitante sorriu. Ninguém jamais o tinha chamado de Bravura. Aquelas palavras eram tão bonitas que ele se sentiu digno de carregar o peso de um exército.
Pouco depois, uma mulher de roupas simples chegou ao palácio. Ela tinha o rosto cansado, as mãos calejadas de trabalho, e seus olhos eram profundos como poços.
“O que você é?”, perguntou o monarca.
A mulher suspirou. "Eu sou a trabalhadora. Acordo antes do sol e durmo depois que a lua se esconde. O meu propósito é suar para que o pão não falte na mesa."
O monarca refletiu. O que o povo queria ouvir de uma trabalhadora? A força e o valor de quem constrói o reino.
"Então você é a Resistência. É a espinha dorsal deste lugar, o alicerce que nos sustenta. Sem você, tudo desmoronaria!"
A mulher, que sempre se viu apenas como uma trabalhadora, sentiu o peito aquecer. A palavra "Resistência" fez seu trabalho parecer algo nobre.
E assim, o monarca continuou a governar. Ele não dizia o que era. Quando um sábio o visitava, ele se tornava a Sabedoria. Quando um artista chegava, ele era a Inspiração. Ele era um espelho, e em sua superfície, cada um via o que queria ver.
Um dia, um mensageiro chegou ao palácio com uma notícia terrível. Um dragão estava atacando as cidades vizinhas.
“O que você é?”, perguntou o mensageiro, com a voz trêmula.
O monarca hesitou por um segundo. A verdade era que ele não era a Bravura, nem a Sabedoria, nem a Resistência. Ele era apenas um homem que vestia uma coroa e que sabia o que as pessoas queriam ouvir.
Ele não se importava em mentir, pois a mentira criava a paz. A mentira era a tinta que pintava a vida em cores vivas e a melodia que acalmava os corações. E a mentira mais importante era aquela que ele contava para si mesmo: que ele era digno do seu lugar, porque, sem sua habilidade, o reino não poderia funcionar.
“Sou a Confiança,” ele disse ao mensageiro, e sentiu o peso da palavra. “A confiança de que, juntos, vamos superar qualquer desafio.”
O mensageiro, ao ouvir as palavras fortes e reconfortantes, sentiu a coragem voltar ao seu corpo.
O monarca, no entanto, sabia que a sua mentira era a única verdade do reino. Ele não era nada, mas era tudo. E, ironicamente, por não ser o que dizia ser, ele se tornou a única pessoa de quem o reino precisava. A mentira perfeita era a sua maior qualidade, e foi ela que o fez reinar.