111. Agradeça

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Na prateleira, o martelo cochichava com a panela:

— Toda vez que me usam, fico mais gasto. A cada pancada, uma dor nova.

A panela respondeu, com ar triste:

— Eu também. Cada vez que esquento, fico mais arranhada e com manchas que não saem.

O rádio, que já não pegava direito, suspirou:

— Nem falo nada… Quanto mais tocam minhas músicas, mais minha voz falha.

Todos ficaram calados até que ouviram uma risadinha. Era o corpo humano, sentado na cadeira, ouvindo a conversa.

— Vocês não entendem nada — disse ele. — Quando me usam, eu fico melhor! Se corro, respiro mais fácil. Se trabalho, aprendo mais. Se danço, fico mais leve. Quanto mais vivo, mais descubro.

Os objetos se olharam, espantados.

— Então você não enferruja? — perguntou a chave.

— Não — respondeu o corpo. — Eu me conserto sozinho, e ainda volto mais forte!

O martelo resmungou:

— Isso não é justo!

A panela completou:

— É, a gente se acaba… e você se aprimora.

O corpo humano sorriu e arrematou:

— Essa é a diferença: vocês foram feitos para servir. Eu fui feito para viver.

E, enquanto os objetos choravam ferrugem, o corpo saiu para dar uma caminhada, voltando mais disposto do que antes.

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