Na prateleira, o martelo cochichava com a panela:
— Toda vez que me usam, fico mais gasto. A cada pancada, uma dor nova.
A panela respondeu, com ar triste:
— Eu também. Cada vez que esquento, fico mais arranhada e com manchas que não saem.
O rádio, que já não pegava direito, suspirou:
— Nem falo nada… Quanto mais tocam minhas músicas, mais minha voz falha.
Todos ficaram calados até que ouviram uma risadinha. Era o corpo humano, sentado na cadeira, ouvindo a conversa.
— Vocês não entendem nada — disse ele. — Quando me usam, eu fico melhor! Se corro, respiro mais fácil. Se trabalho, aprendo mais. Se danço, fico mais leve. Quanto mais vivo, mais descubro.
Os objetos se olharam, espantados.
— Então você não enferruja? — perguntou a chave.
— Não — respondeu o corpo. — Eu me conserto sozinho, e ainda volto mais forte!
O martelo resmungou:
— Isso não é justo!
A panela completou:
— É, a gente se acaba… e você se aprimora.
O corpo humano sorriu e arrematou:
— Essa é a diferença: vocês foram feitos para servir. Eu fui feito para viver.
E, enquanto os objetos choravam ferrugem, o corpo saiu para dar uma caminhada, voltando mais disposto do que antes.