117. Vai Melhorar, Tudo Passa

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Acordou com a convicção de que aquele seria o dia. O dia em que o improvável finalmente aconteceria. O pão cairia com a manteiga virada para cima. O ônibus chegaria no horário. O chefe elogiaria sem sarcasmo. O gato aprenderia a usar a privada. Tudo indicava: era hoje.

Vestiu-se com a roupa da sorte — a que não dava alergia nem parecia um saco de pão — e saiu com a postura de quem espera um milagre no ponto de ônibus. Esperou. Esperou mais. O ônibus passou... voando. Literalmente. Um novo modelo com asas. Não parou.

No trabalho, o chefe passou, olhou, abriu a boca... e espirrou. Três vezes. E foi embora. O elogio ficou preso entre o nariz e a garganta.

No almoço, pediu o prato do dia. Veio o prato. Sem comida. Era uma instalação artística sobre a fome. A garçonete explicou que era uma crítica social. A fome também.

Na volta pra casa, encontrou o gato lendo o manual da privada. Animou-se. O gato olhou, miou e fez xixi na planta. A planta morreu de desgosto.

Sentou-se no sofá, olhou para o teto e pensou: “Talvez amanhã.” Nesse momento, a campainha tocou. Abriu a porta. Era o improvável. Tinha vindo entregar um panfleto de autoajuda e pedir uma xícara de açúcar.

Fechou a porta devagar, sentou-se novamente e concluiu: “Definitivamente, é perda de tempo esperar acontecer o que é pouco provável. Mas que dá uma boa história, dá.”

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