119. Voe

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Era uma vez um pé. Não um pé qualquer, mas um pé com aspirações. Enquanto seus irmãos ficavam ali, plantados no chão, firmes e honestos, este pé sonhava com o céu. Ele observava os pássaros, as nuvens e até as folhas levadas pelo vento com uma inveja colossal.

"Por que eu tenho que ficar preso a esta terra?", reclamava ele para o tornozelo, que, pacientemente, apenas o mantinha conectado ao resto do corpo.

Um dia, o pé teve uma ideia genial. Ele se lembrou de ter visto um homem usando um balão para subir. "É isso!", exclamou, sentindo uma cócega de excitação nos dedos.

Com muito esforço – e algumas rções hilárias que deixaram o corpo todo tonto –, ele conseguiu prender um pequeno balão de festa, daqueles que vêm em pacotes coloridos, em um dos seus dedos. O balão, claro, estava cheio de ar, não de hélio, mas na mente do pé, era o suficiente.

Ele esperou o momento certo. Quando o corpo estava distraído, tentando equilibrar-se em uma perna só para pegar uma fruta no alto de uma árvore, o pé deu um impulso.

O resultado não foi exatamente um voo majestoso. O corpo desequilibrou-se completamente, caindo de bunda no chão com um baque surdo. O pé, preso ao balão, deu um pequeno pulinho desajeitado, balançando precariamente a poucos centímetros do solo, como um enfeite de natal esquecido.

O balão, com sua leveza insuficiente, apenas serviu para desestabilizar ainda mais a situação. O pé, agora mais preso ao chão do que nunca pela queda do corpo, sentiu uma pontada de vergonha.

"Talvez...", pensou o pé, enquanto o corpo se levantava com um gemido, "talvez andar com estas duas coisas aqui embaixo não seja tão ruim assim." E, pela primeira vez, ele sentiu um certo apreço pela gravidade.

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