O homem era de fé, mas também de suor. E de uma calvície brilhante que refletia o sol de meio-dia como um espelho de mão. Ele vivia de sua pequena roça, plantando milho, feijão e, por vezes, umas ervilhas teimosas que nunca davam certo.
Certo dia, ele estava com as costas em frangalhos, capinando o mato que, milagrosamente, crescia três vezes mais rápido que sua lavoura. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão e resmungou para o alto:
— Pão com o suor do rosto, né? Podia ser pelo menos com o suor da axila, que é mais fácil de limpar. A providência é prometida, mas cadê ela? Um tratorzinho pra capinar essa praga não seria nada mal.
No mesmo instante, uma pequena nuvem se formou sobre sua cabeça. Não era chuva, mas parecia que o céu ia tossir. Uma voz, que soou mais como um eco de trovão do que como uma voz angelical, respondeu:
— A providência está na sua enxada! E a fé na sua enxada!
O homem bufou, mas continuou. A enxada era pesada, o sol era cruel e a conversa com o céu estava ficando estranha. No dia seguinte, ele se deparou com uma praga de gafanhotos famintos que pareciam ter se formado em um batalhão de elite. Eles desciam sobre a roça como se fosse um buffet.
— Pai, socorro! — gritou ele, largando a enxada. — A provisão é prometida, né? Mande um bando de bem-te-vis famintos! Mande uma chuva de pimenta! Mande o que for!
A voz celestial voltou, agora com um tom de quem está sem paciência.
— A providência sou Eu dando a você a ideia de cobrir as plantas com um lençol velho. E a fé é você fazer isso em vez de ficar parado berrando!
O homem olhou para o alto, depois para os gafanhotos, depois para o lençol velho pendurado no varal. Ele coçou a cabeça. A calvície brilhava como uma lâmpada. De repente, uma lâmpada acendeu, mas não era a da sua cabeça. Ele correu, pegou o lençol e começou a jogá-lo sobre o milho. Os gafanhotos, confusos, se afastaram por um tempo.
Foi assim que ele compreendeu. A providência divina não era uma mágica espetacular, um trator caindo do céu ou uma nuvem de passarinhos. Era a ideia de usar o lençol, a força para segurar a enxada, e a oportunidade de ter o suor para trabalhar. A fé era a confiança de que, se ele fizesse a parte dele, o Alto faria a d'Ele. Ou, como ele resumiu para seu vizinho:
— A providência acontece, mas a gente tem que colaborar. E, se o milho não der, a gente vende a enxada. O importante é a fé no lucro.
O vizinho achou a ideia interessante, mas ficou intrigado com a enxada. O termina com o homem usando a enxada para ajudar a cavar um poço. A história dele se tornou uma piada na vila: ele era o homem que rezava para a chuva, mas tinha uma enxada na mão e um lençol no varal. Porque, no fim das contas, a fé sem obras era só uma reza, e o suor sem fé era só cansaço.